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Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração inicial

História 23 · Memória e Estratégias 5+

Bani e a Biblioteca das Lembranças

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Antes da Festa das Lanternas, Bani precisava lembrar oito coisas: uma fita vermelha, uma colher, três maçãs, um sininho, um pincel, uma vela, uma xícara e um rolo de corda. “Fácil!” disse, repetindo a lista tão depressa que a língua se enrolou no sininho. Um minuto depois lembrava perfeitamente da fita, das maçãs e de… “alguma coisa importante e provavelmente redonda”. Por isso foi à Biblioteca das Lembranças, onde bolhas luminosas flutuavam nas prateleiras altas no lugar de livros. Naquele dia também havia confusão: centenas de bolhas tinham se soltado das etiquetas e batiam umas nas outras perto do teto.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 2

Bibliotecário Guaxinim apareceu atrás do balcão usando pantufas de cores diferentes. “A memória resolveu fazer carnaval hoje”, anunciou. Bani tentou capturar as bolhas uma a uma e logo segurava cinco sem lembrar qual era qual. Guaxinim colocou três cestas: Comida, Enfeites e Ferramentas. Maçãs e xícara foram para a primeira; fita, sino e vela para a segunda; pincel e corda para a terceira. A colher pulou de uma cesta para outra até Bani decidir que naquele dia ela pertencia à comida. Três grupos pequenos eram muito mais fáceis de entender do que uma pilha enorme.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 3

Na prateleira seguinte moravam as Ligações. Bani pegou colher, xícara e fita e imaginou uma cena absurda: uma colher gigante navegando dentro de uma xícara como barco, com a fita vermelha de vela. As três bolhas grudaram e brilharam mais. Ele imaginou o sino como chapéu de uma maçã e o pincel como bigode da vela. Bani riu tanto que Guaxinim espiou da escada. “Quanto mais estranho, mais fácil lembrar?” “Nem sempre, mas uma lista sem graça pode ganhar uma aventura.” Bani descobriu que a memória também gosta de histórias, principalmente quando uma maçã usa um sino na cabeça.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 4

Depois Guaxinim levou Bani por um caminho conhecido dentro da biblioteca. Na porta, imaginaram deixar a fita vermelha; no relógio, penduraram o sininho; junto à janela sentaram as maçãs; ao lado do globo deixaram a corda. “Mas as coisas não estão ali de verdade.” “Os lugares estão na sua cabeça.” Bani fechou os olhos e percorreu a rota: porta-fita, relógio-sino, janela-maçãs, globo-corda. As bolhas acima formaram uma fileira, como se também passeassem. Ao abrir os olhos, Bani conseguiu dizer a lista inteira sem ajuda.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 5

Bani decidiu que sua memória estava consertada para sempre. Guaxinim fez chá, eles conversaram e depois ele perguntou de repente: “O que vinha depois da vela?” Bani travou. Duas coisas tinham se escondido de novo. “Mas eu já sabia!” “Memória não é armário com chave. Ajuda voltar ao assunto depois de algum tempo.” Bani não repetiu a lista vinte vezes seguidas. Percorreu mentalmente o caminho, encontrou as lacunas e testou outra vez mais tarde. Na segunda tentativa, as palavras voltaram mais rápido. Esquecer deixou de parecer prova de que havia algo errado.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 6

Na festa, tudo mudou de lugar de verdade. A fita foi usada num presente, não numa lanterna. As xícaras foram para o palco e o sininho para a entrada. Se Bani tivesse decorado apenas uma ordem, estaria perdido. Mas lembrava dos grupos e das imagens malucas: comida, enfeites, ferramentas; colher-barco; maçã com sino. Assim encontrava as coisas mesmo quando mudavam de lugar. Quando alguém pediu o pincel, Bani imaginou a vela com bigode e começou a rir. “Sua memória é muito estranha”, disse Esquilo. “Mas hoje está funcionando”, respondeu Bani.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 7

Depois da festa, Bani voltou para ajudar a recolher as bolhas restantes. Já não perseguia cada uma separadamente. Procurava o que podia ser agrupado, que imagem poderia ligar várias coisas e em qual lugar conhecido guardar uma pista. As lembranças mais teimosas iam para uma prateleira escrita VOLTAR MAIS TARDE. Aquela virou sua favorita. Antes, esquecer uma palavra parecia um buraco na cabeça. Agora era mais um convite para tentar outro caminho: desenhar, agrupar, ligar a um lugar ou descansar e voltar.

Bani e a Biblioteca das Lembranças — Ilustração 8

Antes de se despedir, Guaxinim deu a Bani uma fita com três nós. O primeiro dizia “agrupe”, o segundo “crie uma ligação”, o terceiro “volte depois e confira”. “E um quarto?” Guaxinim fez um nó bem pequeno. “Descanso. Uma memória cansada também pode fechar a biblioteca.” Bani deixou a fita ao lado da cama. Antes de dormir, repetiu a lista da festa e lembrou tudo. Então acrescentou: “E as pantufas do Guaxinim: uma azul e outra verde”. Ninguém tinha pedido para guardar aquilo, mas sua memória aparentemente achou que valia a pena.